Archive for the ‘Entrevista’ Category

O rock instrumental da Pata de Elefante

4 Junho, 2008

Elis Martini

Responsáveis por uma das propostas mais originais do rock brasileiro, a Pata de Elefante sobe ao palco do Porão do Beco no próximo sábado para lançar ‘Um olho no fósforo, outro na fagulha’, segundo disco da banda. O som instrumental com pegada surf, que ganhou projeção com o CD de estréia em 2004, volta revigorado com fortes influências do folk, do country, do blues e do soul. Para o especial dessa semana, conversamos com Daniel Mossmann (guitarra e baixo), Gabriel Guedes (guitarra e baixo) e Gustavo “Prego” Telles (bateria) para saber um pouco mais sobre o grupo e o novo trabalho.

Apesar de ‘Um olho no fósforo, outro na fagulha’ ter sido lançado em novembro de 2007, durante o Goiânia Noise Festival, o disco chega oficialmente na terra natal da banda agora. “Demos uma segurada no lançamento porque no verão o rock sempre dá uma ‘morrida’. No final de fevereiro saiu matéria sobre a banda na Folha de S. Paulo e depois lançamos o disco no Abril Pro Rock, em Recife. Por uma questão estratégica, resolvemos lançar o disco aqui um pouco mais tarde”, explicam.

Elis MartiniAs 18 faixas do disco contam com participações de Luciano Leães (piano e órgão), Marcio Petracco (pedal steel e bandolin), Lúcio Vassarath (cítara), Alexandre “Papel” Loureiro (bateria), Rodrigo Siervo (sax), Anjinho (trompete), Júlio Rizzo (trombone), Vicente Guedes e Pedro Hahn (percussão).

A diversidade sonora é o ponto alto do novo trabalho e prova do refinamento adquirido ao longo dos últimos quatro anos. “O clima folk pintou mais nesse disco. Ainda há surf music como no primeiro, mas tem alguns elementos country e referências mais explícitas ao blues e ao soul. É um disco mais melódico, com baladas. O outro era baseado em riffs mais pesados”.

A música que dá título ao CD é um dos destaques, com metais alegres e ritmo dançante. As faixas ‘Hey!’ e ‘Bolero das Arábias’ também estão entre as melhores do disco. O uso da cítara em ‘Don Genaro’ e o clima de OcktoberFest em ‘Até mais ver!’ são surpresas positivas e mostram a preocupação do grupo com a qualidade e a originalidade dos arranjos. Para os fãs do primeiro trabalho, a faixa ‘Satuanograso’ mantém o clima surf.

Elis MartiniFormada em 2002, a Pata de Elefante levou o Prêmio Açorianos de Música, na categoria Revelação, pelo seu álbum de estréia. Além disso, a banda é presença constante nos principais festivais alternativos do país. Duas faixas do novo disco aparecem em coletâneas de música brasileira lançadas recentemente na Europa: ‘Hey!’ faz parte do CD ‘O novo rock do Brasil’, que saiu na França através da revista ‘Brazuca’, e ‘Satuanograso’ integra a coletânea em vinil ‘2007 – Brazilian Surf a Go Go’, distribuída em Portugal.

Apesar do som instrumental, muitas das referências da Pata de Elefante estão no rock clássico de Jimi Hendrix, Cream, The Who, The Band e Eric Clapton. “Nós temos uma banda instrumental com referências de música vocal”, dizem os integrantes do grupo. Apesar disso, a influência dos grupos instrumentais de música popular do final dos anos 50 e do início dos anos 60 também é grande. “Não é jazz ou coisa assim. É música instrumental popular. Nos anos 60, grupos como The Ventures, The Shadows e Freddie King emplacavam hits. Antes dos Beatles, quem mandava na Inglaterra eram os Shadows. Isso estava na moda e dava grana”.

Outro grupo bastante apreciado pelo trio se chama Tijuana Brass. “Nós curtimos muito essa sonoridade. Obviamente, por ser uma banda instrumental, nos identificamos com eles. A Pata é uma banda de canções, de ‘canções instrumentais’. Se não existir esse termo, nós inventamos ele”.

A boa receptividade da Pata de Elefante pelo público em geral pode estar na fórmula pop utilizada pela banda. Ao contrário do jazz instrumental, que tem origem em improvisações, as melodias do grupo seguem uma estrutura bem definida. “Geralmente chegamos com as músicas quase prontas e alguém traz algum complemento. As canções não costumam nascer de improvisos. Seguimos um modelo bem pop de composição. As músicas são bem pensadinhas: parte A, parte B, verso, ponte”.

Elis MartiniAlém do mais, a banda acredita que as músicas poderiam ser cantadas. “As melodias das guitarras poderiam ser o vocal. O Prego, por exemplo, compõe com o violão na mão e canta a parte da guitarra. São melodias cantáveis”.

Ensaiando quase que diariamente para o show de lançamento deste sábado, a banda ainda arruma tempo para pensar no próximo trabalho: um disco só de baladas. Além disso, os integrantes do grupo estão envolvidos com projetos paralelos. Daniel Mossmann é baixista da Acústicos & Valvulados, Gabriel Guedes toca guitarra no Garotos da Rua e Gustavo “Prego” Telles está gravando um disco solo, acompanhado por membros da Locomotores e dos companheiros da Pata.

No mês de julho, a Pata de Elefante volta a dar as caras em São Paulo, participando do projeto Rumos Itaú Cultural. A turnê nacional segue em agosto com shows em outros estados.

Confira mais fotos da entrevista na nossa galeria.

Quem quiser assistir ao show “bem pegado” da Pata de Elefante, com a banda tocando a íntegra do novo trabalho, segue abaixo o serviço:

Quando? 7 de junho, às 22h (jura)
Onde? Porão do Beco (Independência, 936 – Porto Alegre)
Quanto? 15 pilas ou 20 pilas com o novo disco (promoção vale para os primeiros 200 CDs)

O show contará com as participações de Alexandre “Papel” Loureiro (bateria); Marcio Petracco (pedal steel e bandolin); Rodrigo Siervo, Anjinho e Júlio Rizzo (nos sopros); Maurício Chaise (violão e guitarra); Lúcio Vassarath (cítara).

Depois da apresentação, rola a festa Fellas, com Schutz e Machuca convidando Marcelo Ferla.

O novo álbum estará disponível inteiro no MySpace da banda a partir de sexta-feira, na versão streaming. Para acompanhar as últimas notícias da banda, você pode acessar o site dos caras.

Por: Elis Martini e André Schröder
Fotos:
Elis Martini

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TeNenTe Cascavel: A volta do TNT e dos Cascavelletes!

27 Maio, 2008

André Schröder

Para o especial dessa semana, o Moderninho entrevistou a TeNenTe Cascavel, que faz seu show de estréia dia 5 no Opinião. Se o nome do grupo ainda soa meio estranho, os componentes são bem familiares: Frank Jorge, Alexandre Barea, Luiz Henrique “Tchê” Gomes, Marcio Petracco e Luciano Albo, ex-integrantes das duas bandas fundadoras do rock gaúcho. As músicas também são nossas velhas conhecidas, ou quem aqui nunca dançou ‘Cachorro louco’ enlouquecidamente ou cantou ‘Sob um céu de blues’ em uma rodinha de violão? Leia na matéria abaixo como foi nossa conversa sobre esse novo projeto, o preconceito contra bandas antigas que se reúnem, o fim do TNT e dos Cascavelletes e muito mais!

André SchröderChegamos um pouco antes do horário no estúdio do baterista Alexandre Barea, ex-Cascavelletes, e conseguimos escutar as últimas músicas do ensaio da TeNenTe Cascavel. Entre elas, uma versão quase punk de ‘O mundo é maior que o teu quarto’, sucesso radiofônico do TNT. Logo fomos simpaticamente recebidos por “Tchê” Gomes, ex-TNT, com quem havíamos feito contato. Enquanto o pessoal se posicionava para a entrevista, Frank Jorge, ex-Cascavelletes, e Marcio Petracco, ex-TNT, conversavam sobre um suposto churrasco: “Churrasco rock n’roll?”, perguntou Frank. “Não churrasco de levar filho, mulher e cachorro”, respondeu Marcio. É, the times they are a-changin’.  

Iniciamos nossa conversa falando sobre a iniciativa de formar essa nova banda para tocar os clássicos do TNT e dos Cascavelletes. “Não é uma coisa de dentro, parece que o mundo conspira para que a gente se reúna, é um acerto cósmico“, afirma Tchê Gomes, que teve que ouvir risadas dos colegas devido à expressão new age utilizada na frase. Barea completa dizendo que no seu caso o que o incentivou foi a vontade de tocar: “Centenas de vezes já tentamos reunir os Cascavelletes. Ano passado rolou um show [no aniversário da rádio Pop Rock], mas foi um parto para conseguir juntar a galera. Sempre tem um que não quer porque tá lançando disco, tá em turnê, tá na Europa. Eu, o Frank e o Albo sempre estamos afim de tocar, mas a gente ficava sem poder fazer, então essa foi uma solução até melhor. Conseguimos reunir tanto as principais músicas dos Cascavelletes quanto as do TNT“.    

André SchröderQuando perguntados sobre os planos de fazer turnê no interior e em outros estados, Tchê afirma que “a carroça pretende andar, mas a banda ainda não tem nada marcado” e Marcio completa em tom de deboche “a gente gastou muito dinheiro em ensaio, vai ter que rolar mais shows para cobrir”. O lançamento de músicas inéditas também  é uma possibilidade, apesar de não estar nos planos atuais da banda.  

Não poderíamos deixar de falar do preconceito que as bandas antigas sofrem quando resolvem voltar à ativa, afinal de contas o que mais se ouviu quando grupos como The Police, The DoorsThe Who, entre muitos outros (até as Spice Girls), se reuniram foi que os músicos estavam somente atrás da grana. Nesse momento Frank Jorge dá sua primeira declaração: “Ser músico é um trabalho profissional como qualquer outro, a gente está fazendo algo tão normal como qualquer outro grupo poderia fazer. Com CPI do Detran e roubalheiras múltiplas, não venham pirar com uns caras que se juntam para fazer um show de rock profissional!Barea completa ressaltando o profissionalismo da banda: “É óbvio que a gente gosta de dinheiro, quer ganhar dinheiro, mas em troca a gente vai dar um show de primeira qualidade, a gente não se reuniu uma semana antes pra fazer um show porcaria e juntar uns trocados para encher a cara. Estamos nos esforçando e trabalhando sério, não é um caça-níquel barato“. Sem querer, Marcio dá a deixa para o nosso próximo assunto: “Se fosse pela grana, não estariam só os parceiros, se fosse pela grana, de repente iriam estar os cantores também“.

A ausência de Flávio Basso – atual Júpiter Maçã e ex-vocalista dos Cascavelletes – na TeNenTe Cascavel até é facilmente compreendida (não sabe porquê? leia nossa entrevista com ele). Porém a falta de Charles Master, ex-vocalista do TNT que participou da reunião do grupo ocorrida em 2003, é mais questionável, já que boa parte das lendas do rock gaúcho gira em torno das desavenças entre os integrantes da banda. Sobre esse assunto, Marcio é categórico: “Não vamos ficar tornando públicas bobagens e eventuais problemas pessoais. Em princípio todos seriam bem-vindos na banda, mas a jogada aqui é uma questão de afinidade tanto musical quanto pessoal. Eu particularmente adoraria ter o Flávio aqui, mas acho que ele não tá muito nessa pilha. É importante que os caras que estão aqui estejam afim do lance como ele é”. Tchê completa: “É muito cansativo trabalhar com determinadas pessoas, não paga a questão emocional”.

André SchröderO assunto se desenvolve até que questionamos sobre os motivos pelos quais as bandas acabaram. Sobre o TNT, Marcio afirma que muitos atritos começaram a surgir depois que o grupo começou a fazer shows no sudeste: “Quando botamos a cara no eixo Rio/São Paulo, a pedreira começou a rolar e as pessoas começaram a se revelar“. Já Barea deu uma explicação mais mercadológica para o final dos Cascavelletes: “Problemas sempre existem, mas quando tá rolando show a coisa anda. No início dos anos 90 o rock nacional perdeu muito espaço para coisas como pagode, axé, sertanejo. Os anos 90 foram terríveis pro rock, foi uma década horrível. De 1990 até 1993, 80% das bandas dos anos 80 acabaram. Na época eu larguei tudo e abri uma pizzaria, porque achei que o rock tinha acabado no Brasil“. 

Mas se os problemas pessoais desgastaram o TNT e o mercado esnobou os Cascavelletes, a TeNenTe Cascavel parece estar muito bem e promete música boa e diversão no seu show de estréia. “O espírito agora é o mesmo de quando a gente tinha dezoito anos”, afirma Tchê, fazendo referência aos tempos áureos das duas bandas. “É legal ver como foi longe aquela influência, o que a gente começou quando tinha dezoito anos se transformou numa coisa que hoje é chamada de rock gaúcho, que é uma marca pra todo Brasil e que influencia bandas não só daqui”, completa Barea. Exemplos disso não faltam: Faichecleres, Identidade e Sapatos Bicolores são algumas das dezenas de bandas que revivem o som criado por esses caras nos anos 80.

Confira mais fotos da entrevista na nossa galeria.

Para quem quiser conferir o show, adiantamos que a banda está super entrosada depois de dois meses de ensaio e promete roupagens novas para algumas músicas. Abaixo segue o serviço:

Show da TeNenTe Cascavel
Data: 05/06/2008
Horário: 23h
Local: Opinião – Rua José do Patrocínio, 834 – Porto Alegre
Ingressos: Antecipados a R$ 20 nas lojas Backdoor (Shoppings Iguatemi, Praia de Belas, Rua da Praia e Lindóia), pela telentrega (51) 8401-0104  ou pelo site Opinião ingressos. O preço para compra na hora do show não foi divulgado.  

Por: Elis Martini e André Schröder
Fotos: André Schröder

Visitamos Tony da Gatorra

13 Maio, 2008

Nico Collares

No último sábado (10.04) estivemos na periferia de Esteio (RS) para conversar com Tony da Gatorra, o técnico em eletrônica que virou músico depois de criar um instrumento único para acompanhar suas letras de protesto e seus pedidos de paz. Depois de alguma dificuldade para encontrar a rua certa, fomos recebidos gentilmente pelo artista em uma casa com placa de “vende-se” na frente. Murais com reportagens, fotos, credenciais, desenhos, flyers e presentes decoram as paredes da sala. Perto da TV de 14 polegadas ficam alguns amplificadores e, escorada em um suporte improvisado, a gatorra número 1. Em um cômodo ao lado da cozinha, a infinidade de peças e ferramentas dão cara à oficina onde Tony idealizou e construiu o instrumento que deu novos rumos à sua vida.

Quando surgiu a idéia de montar um instrumento?
Começou com a minha idéia de protestar contra o sistema capitalista no Brasil, contra a exploração que os “espertos” fazem aqui. Eu me criei passando fome, via as dificuldades de todo mundo e via que se aproveitavam da ingenuidade do povo. Tive vontade de fazer alguma coisa, entende? Eu também sempre gostei de música e de percussão. Quando era solteiro até comprei uma bateria e era carregador de instrumentos de uma banda de bailão.

Quanto tempo demorou pra fazer a primeira gatorra?
Eu fiquei um ano trabalhando em cima dela e não dava certo. Eu estava quase desistindo, mas daí gravei o CD e levei lá na [rádio] Ipanema. O cara ouviu e me convidou pra televisão.

Quantas tu já fez até agora e quanto tu cobra por cada uma?
Fiz dez até agora e tenho mais três pedidos para confirmar em São Paulo. Eu cobro R$ 1,5 mil por cada uma. Vai sair uma matéria minha no ‘Fantástico’ no próximo domingo e os pedidos devem aumentar. Eu tenho minha oficina aqui em casa mesmo e levo cerca de dois meses para fazer uma. Agora estou me equipando melhor porque acho que vai aparecer muito pedido e tenho que ser mais rápido.

Nico CollaresÉ muito difícil fazer a gatorra?
É complicado porque eu tenho que improvisar com o material. As teclas, os botões, eu tenho que achar daqui e dali. Eu pretendo industrializar, padronizar, fazer uma linha de montagem. Tenho outras idéias para fazer isso, também para baixar o custo.

Tu baseou a gatorra no que?
Eu li sobre os circuitos que provocam efeito de som através dos capacitores de retorno e isso me chamou a atenção. Vi que mudava o sinal através do capacitor. Comecei a fazer algumas experiências e deu certo. No início tive problemas porque cada botão do instrumento dava um som duplo, mas depois consegui resolver utilizando outro tipo de sistema.

E quem já comprou o instrumento?
Em 2005 eu comecei a vender gatorra lá em São Paulo. Antes disso, aqui no Rio Grande do Sul, eu não tinha vendido nada. Meu produtor comprou a gatorra número 3, meu empresário comprou a gatorra número 4, depois um cinegrafista também comprou. Fiz uma para a Lovefoxxx, da Cansei de Ser Sexy, e também para o Nick [McCarthy], da Franz Ferdinand.

E tu trabalha só com isso agora?
Só gatorra. Não conserto mais porque não dá tempo. Até 2005 meu ganha pão era conserto de TV, vídeo. Agora é gatorra e alguns amplificadores valvulados para estúdio que eu monto.

Depois de uma breve aula de fundamentos da gatorra, Nico e eu arriscamos tirar um som do instrumento. Apesar da grande quantidade de botões e reguladores, a gatorra não é tão difícil de ser tocada, pois segue a lógica da bateria. Quando localizados os botões correspondentes ao bumbo, à caixa e ao chimbal, o desafio é manter o ritmo e arriscar nos improvisos. Além disso, Tony adaptou um pedal que funciona como bumbo e permite mais versatilidade no uso das mãos.

Como foi tocar na Europa?
Foi demais. É muito bom tocar lá e eu fiquei bem conhecido. Meu empresário, que é de São Paulo, disse para eu ficar preparado porque novas viagens vão aparecer. Toquei em Londres, em Glasgow. Dividi o palco com o Nick [McCarthy] em um festival. O pessoal gostou bastante.

E tu vai voltar esse ano para tocar lá?
Em junho eu tenho quatro shows em São Paulo e dois no Rio de Janeiro. Depois, em agosto ou setembro, eu vou para o Japão tocar em um festival grande que vai ter em Tóquio. Quero muito tocar lá, porque eles são loucos por instrumentos de percussão. Meu empresário está tentando fazer eu tocar em Glasgow de novo e acho que também nos Estados Unidos.

E o CD novo? Quando sai no Brasil?
O disco ‘Novos Pensamentos’ foi lançado somente na Europa. É o quarto CD que eu tenho desde 2005, mas o primeiro com a gravadora [Slag Records]. Deu um problema para lançar aqui. O meu empresário era o mesmo da Cansei de ser Sexy, mas eles tiveram uma bronca e romperam. Como a Lovefoxxx tem participação em duas faixas do meu CD, ele está com medo de lançar aqui, de fazer a divulgação e receber um processo.

O disco é só com gatorra ou tem outros instrumentos?
Sempre sozinho. Sem banda e sem instrumental. Eles colocaram alguns efeitos na mixagem, mas nos shows sou sempre eu sozinho.

A maior parte das músicas é de protesto?
Sim. Eu falo contra esses safados que pegam nosso dinheiro. Mas também falo muito de paz e de coisas bonitas.

A edição européia do CD ‘Novos Pensamentos’ vem encartada em papelão reciclado, com uma arte muito legal. As informações e a letra de três músicas são apresentadas escritas a mão pelo próprio Tony, junto com desenhos dos circuitos utilizados para construir a gatorra (uma espécie de teoria do instrumento). Além do lançamento oficial do disco no Brasil, Tony espera ansioso pelo seu primeiro DVD, uma compilação de imagens de shows que está sendo produzido em São Paulo.

Vimos que a casa está para vender…
É que eu quero ir para mais perto de São Paulo. Eu gasto muito indo para lá toda hora. Meus shows mesmo são em Curitiba, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife. Às vezes, gasto metade do que ganho em hotel. Aqui no Rio Grande do Sul não tem muito espaço, o pessoal gosta mesmo é de vanerão, música pra se divertir. Meu trabalho não é muito apreciado aqui.

E como são os shows no centro do Brasil. Tu é bem recebido?
Eles gostam muito, entendem as músicas e compram os CDs. Minha mensagem é bem recebida principalmente por estudantes, jornalistas e professores. Toquei em várias universidades como convidado e ainda me pagavam cachê de 300 contos. Toquei também em um festival no Recife. Toco as minhas músicas e falo com o público. Eu fico orgulhoso.

Nico CollaresTony mostra boa parte dos recortes colados nas paredes e também a pequena pilha de revistas onde aparece, entre elas uma publicação britânica que aponta orgulhoso. As fotos de apresentações ao lado de Nick McCarthy, da Franz Ferdinand, e de Gruff Rhys, líder do Super Furry Animals, se destacam. Uma gatorra de pelúcia e um retrato de Tony feito a mão, presentes de Lovefoxxx, também O artista envia semanalmente cartas para o produtor em São Paulo. Os textos são digitados sem correções ou alterações e publicados no blog. Além disso, o produtor também cuida das músicas no MySpace. Outros sons de Tony da Gatorra podem ser encontradas na Trama Virtual.

Tu mora sozinho?
Moro com o meu filho. Quando eu comecei a fazer a gatorra e os primeiros shows, minha companheira me deixou. Eu tive que investir no projeto e todo o dinheiro que ganhava ia em panfletos e passagens. Ela pediu para escolher entre a gatorra e ela. Depois de dez anos ela quis voltar. Burra, né? Meu filho tem 29 anos e me ajuda, vai comigo para Porto Alegre quando eu preciso.

Como tu montou esse visual característico?
Eu mando fazer a calça, o colete, a faixa. Não tem pra vender. Uso sempre nos shows e o pessoal gosta.

Nas músicas tu fala sobre corrupção e injustiças cometidas pelo governo. Em quem tu vai votar nas próximas eleições?
Tá difícil. Esse cara [Lula] me enganou. Eu votei nele na primeira vez, mas ele é um covarde mentiroso. Esse porco falou um monte de coisa e não fez nada. Só fez a “Bolsa Miséria”, que é uma humilhação. Em vez de investir no social, faz isso.

Tu usa algum tipo de droga?
Eu sempre usei maconha. Nem considero droga. Nossa turma em São Paulo sempre fuma. Para mim é até anti-depressivo. Droga são essas farinhas que o pessoal usa, que deixa a pessoa fora de controle, sem raciocínio, que mata neurônios. A maconha me acalma e me ajuda a compor. Pra mim não é droga porque é natural.

Quais tuas referências musicais? O que tu gosta de ouvir?
Sempre curti mesmo é Rolling Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin, The Who, Beatles. Tenho até os bolachões aqui. Ultimamente ouço coisas variadas: gosto bastante da Cachorro Grande, da Ultramen e do Paralamas do Sucesso.

Tu tem algum ritual para fazer as músicas?
As idéias das músicas vêm de acordo com o que ocorre por aí. Fico prestando a atenção e as idéias aparecem. Não sou muito de sair. Fico em casa, descansando e fazendo as músicas.

Nico CollaresTu tem aquela música ‘Voz dos Sem-Terra’…
Essa música eu fiz porque acho que sou um dos únicos que incentivam mesmo a ocupação. O Brasil é um país rico, é um dos maiores do mundo em extensão territorial e o pessoal passa fome no meio da fartura.

Tu tem alguma ligação maior com o movimento?
Não tenho ligação nenhuma. Só admiro eles. Uma vez eu toquei para eles em uma invasão na Assembléia Legislativa, com mais de duas mil pessoas.

Como foi o problema que tu teve com a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB)?
Eu tinha um show para fazer no SESC Pompéia de São Paulo, em 2005, e os caras queriam me impedir porque eu não tinha carteira de músico. Eles queriam que eu pagasse mais de R$ 200 para fazer a carteira. O que eu vou querer com essa carteira? Não interessa pra mim, interessa pra eles. Meu empresário é advogado e então nós resolvemos processá-los. Eles [OMB] não te favorecem em absolutamente nada, só te fazem de otário. É uma coisa do tempo da Ditadura. Agora eu tenho uma sentença que me autoriza tocar. Carrego sempre junto comigo.

Vestindo roupas e acessórios de show, Tony tocou duas músicas antes de nos despedirmos na porta da casa e ficou feliz com a possibilidade de assistir aos vídeos na Internet. Nico e eu compramos a versão européia do novo disco por R$ 15. Os interessados podem pedir através do e-mail tonydagatorra@hotmail.com.

Confira mais fotos da visita na nossa galeria.

Veja Tony tocando duas músicas e explicando como funciona a gatorra.

Por André Schröder
Entrevista de André Schröder e Nico Collares
Colaboração de Elis Martini

Entrevista: Plato Divorak conta tudo

21 Abril, 2008

Nico Collares

Na sexta-feira (18.04) tomamos umas cervejas com uma das maiores lendas do rock gaúcho: Plato Divorak. Para quem não conhece, o tipo é uma mistura de guru psicodélico e agitador underground que já reúne doze discos, entre compilações de bandas independentes, parcerias com outros músicos e trabalhos solo. Prestes a lançar seu novo álbum junto com a banda Os Exciters, pela gravadora Pisces Records, Plato abriu o jogo sobre algumas das suas histórias escabrosas. Em meio a muitas exclamações de “canalha!”, “pederasta!” e “seios fartos!”, tentamos descobrir o que passa na cabeça do cara que já foi ator de filme pornô, tem sonhos eróticos com a Mallu Magalhães e diz ter comido a Pitty.

Fale um pouco sobre o teu disco novo?
Ele vai ter 14 músicas inéditas produzidas pelo Thomas Dreher. Temos a participação especial de Ricardo Farfisa, da banda Laranja Freak, nos teclados e órgãos. Também tem trompetista, trombonista e saxofonista. Meu atual parceiro se chama Leonardo Bomfim. Nós temos feito as composições pra voz e violão e depois eletrificamos essas canções. Em relação aos outros trabalhos, as músicas são um pouco mais comportadas, mas mantém a psicodelia, as bizarrices e os efeitos.

E de onde vem essa diferença?
Eu acredito que esse disco, ‘Plato Divorak & Os Exciters’, é um megafone aberto para várias pessoas, enquanto que o ‘Calendário da Imaginação’ é uma coisa mais secreta, que atinge pessoas especiais de uma forma mais aveludada.

Vocês já têm datas e locais para a turnê de divulgação?
Possivelmente vamos tocar em Brasília, Goiás, Uberlândia e Belo Horizonte em maio. Depois que tivermos o disco na mão esperamos que os espaços aqui em Porto Alegre fiquem abertos também.

Qual é a inspiração para esse disco? [Nesse momento Plato puxa de uma sacola de supermercado uma espécie de “cola” que havia praparado previamente. Na folha, várias citações ditas durante a entrevista e um desenho dele mesmo fumando maconha.]
Nesse disco eu sou o poeta espelho. Minha vida é um show ao vivo. Gosto de compor pensando na essência da mais pura verdade. Loucura pouca é bobagem! Canalha! Bem cafajeste!

Plato Divorak

Quais são tuas maiores inspirações musicais?
Tom Verlaine, Lou Reed, Syd Barrett… muita coisa de fora. Eu gosto de elementos ímpares na música arábe, oriental. Também gosto de samba, de MPB tipo Luis Melodia e Valter Franco. De Doors, que foi minha primeira inspiração. De um trabalho como ‘Berlim’, do Lou Reed. Eu posso dizer o seguinte: [de novo ele pega a cola] Um cara que pode achar um disco como ‘Berlim’, de Lou Reed, divertido, com boas sacadas, pode até ser chamado de irracional, quando na verdade ele só está rompendo a grade do pensamento!!

E as bandas atuais?
Gosto bastante do Wondermints, a banda que acompanhou os Beach Boys, do Flaming Lips, até do R.E.M, e tem muita banda boa nacional. Os Variantes, de Curitiba, o Repolho, gosto de Marcelo BirkNão fui no show de lançamento do CD dele porque tava com uma mina chamada ‘a esposa dele’ [risos]. Canalha! Que safadeza!

As bandas atuais aqui de Porto Alegre têm muita influência do rock gaúcho do passado. Tu gosta?
A rapaziada é muito bem ensaiada. Eles crescem com o instrumento na mão e já saem tocando um som na linha do Tutti-Frutti da Rita Lee, do Bicho da Seda. Gosto muito do Locomotores. Só não consigo gostar da Cachorro Grande. Eu vejo uma coisa tocada com desleixo, não acho muito bela. ‘Sinceramente’ é a pior música que eu já ouvi na vida.

André SchröderUma das características que mais marcam teus discos é a psicodelia. Como foi teu primeiro contato com as músicas psicodélicas e com esse estilo de vida?
No começo dos anos 80 eu encontrei duas amigas chamadas Siomara e Simone, musas belas, atrás de um trailer. Eu estava deitado, com roupas hipongas, e elas me acordaram e me levaram. Era época que o ‘On the Road’ estava na moda. E nós fomos viajando até Santa Catarina, na boléia de um caminhão. Fomos pra Garopaba, Laguna, Farol de Santa Marta. Quando voltamos eu comecei a fazer parte da turma. Fazia festas de rock n’roll colocando guitarra dentro do aquário, ouvindo discos do Chuck Berry, Yardbirds, Charlie Christian, trocando vinis. Fui conhecendo coisas, experimentando drogas leves como cogumelo e haxixe, que ainda curto quando rola.

Tu tem muita influência da psicodelia na maneira de se vestir?
Eu sou assim [mostra a “psicodelia” da camisa], mas a minha banda tá numa infuência meio The Who, Small Faces, mod bem no estilo inglês, e eu complemento. Nesses grupos, o vocalista usava o meu tipo de roupa, com influência da psicodelia californiana, e isso deixa a cara da banda muito bonita.

Além da música, o que tu mais gosta de fazer?
Eu gosto de fazer arte em casa, com garotas [risos]. Canalha! Mas não sou um tipo junk drogado. Gosto de experimentar tudo que é bom, como todas as pessoas.

Tu é poeta, busca várias formas de arte…
Sempre escrevi, me inspirava em poetas como [Arthur] Rimbaud, [Georges] Bataille. Eu também fiz uns filmes, gravamos umas coisas bem loucas. Um filme que se chamou ‘Étrange’, que eu fiz o cartaz no estilo Jackson Pollock, bem pederasta! As câmeras a gente pegou com o Gerbase, que era bem meu amigo.

E é verdade que tu fez um pornô?
Lá por 87 eu estava em São Paulo e vi um anúncio procurando atores para um filme pornô na Galeria do Rock. Eu entrei, o cara gostou de mim, eu tinha um corpo muito bonito. Eles tiraram as medidas, – eu tava bem! – e entrei no carro. O motorista ficou dizendo: “Tem que ser grande, hein? Tem que ser grande”. Eu tava com uma morena feiosa com seios fartos, uma loira linda de cabelos lisos e o negão que filmou. Fomos para uma casa com feno, ovelha, cabrito. Foi um filme na linha careta, nada a ver com o estilo hardcore de hoje. A calcinha parecia aquelas cintas para emagrecer. Mas quando o pessoal ficou pelado, daí eu vi que o filme valeu a pena, que era bonito e que eu fiz muito bem a minha parte. As cenas de chupadas foram todas maravilhosas. O nome é ‘Na boca da tricha: de Marte às peladas’. Depois me deram uns 400 pilas e nunca mais fiz pornôs.Paula Biazus

Te encontrei no show da Mallu Magalhães. O que tu achou dela?
Menina prodígio. Foi um prazer total vê-la tocar para mim. Quando ela pega no violão e em outros pequenos instrumentos, eu sinto o seu carisma diretamente. Ela tem muito futuro, mas espero que o primeiro disco tenha uma grande produção. Eu entreguei para ela um CD de músicas minhas com o Leonardo. Ela vai escutar e vai gostar. Tive sonhos eróticos com ela, em que estamos brincando com mel e outras guloseimas. Melzinho no ombro. Especial!

E a lenda de que tu comeu a Pitty, procede?
Estava em Salvador em 1997 e a Pitty ensaiava numa banda hardcore chamada Inkoma. Ela me convidou para um ensaio e depois fomos pra casa dela. Comecei com a boca bem elástica, nos beijamos e fizemos amor gostoso, com camisinha. No outro dia ela veio me buscar no chatô que eu estava. Foi gostoso ter contato com ela.

A maioria dos artistas não consegue viver da música. Como tu faz, tem algum “trabalho diurno”?
Meu emprego são meus discos. Eu gasto meu tempo ouvindo discos, lendo histórias em quadrinhos, ganho uns pilas como DJ. Eu faço coisas que eu gosto, mas que não dão dinheiro.

Tu já organizou festivais aqui em Porto Alegre. Tu pretende fazer mais algum?
Planejo sim, talvez esse ano. Eles se chamavam Montehey PopStock. Foi um bom festival, teve bastante mídia, saiu até matéria de página inteira no Estadão. Um jornalista escreveu o título “Plato: Só mesmo um maluco como ele para organizar uma coisa como essa”. Foi no Garagem Hermética.

Tu teve várias bandas e várias parcerias, entre as quais a clássica com o Frank Jorge. Tu pretende voltar com alguma dessas propostas?
[pega a “cola” novamente e de forma bem cafajeste começa] Um relançamento que as pessoas não perdem por esperar é a K-7 ‘Teen Idols Fora de Órbita’, da dupla Frank & Plato, lançada em 1995. A Krakatoa Records, que é o meu selo, está preparando para CD-R, até a metade do ano.

E os planos para o futuro?
[de novo a “cola”] Estou relançando o disco ‘Momento 68 – Onde estão suas canções?’, de 1999. A big suprise será a nova capa, feita pelo cartunista Fábio Zimbres, bem colorida. Também é raridade o CD que lancei no inverno de 2007, o ‘The Good Memories Bootleg’ com dois shows acústicos de altíssima qualidade sonora. É um Plato bruto. A mídia não quis divulgar, não sei porquê. Se as pessoas se interessarem: platodivorak@gmail.com

Canalha!

Confira na nossa galeria mais fotos da entrevista com Plato Divorak.

Assista a vídeos de Plato & Os Exciters tocando músicas do próximo disco no nosso canal no YouTube.

Por: André Schröder e Elis Martini
Colaboração: Nico Collares

Entrevista: Mallu Magalhães

13 Abril, 2008

Nico Collares

A menina que teve seu primeiro contato com a música ouvindo o pai tocar Leãozinho e Blackbird no violão mobilizou uma quantidade descomunal de curiosos porto-alegrenses para sua apresentação no Porão do Beco, sábado passado. Os que conseguiram entrar presenciaram não o show de um simples fenômeno de internet, mas sim de uma verdadeira artista. Antes de escrever sobre a entrevista coletiva que Mallu Magalhães concedeu na tarde do mesmo dia, gostaria de chamar antenção para a música ‘Noil‘, na minha opinião o ponto alto da noite e prova de que a moça anda escutando coisas diferentes e desenvolvendo cada vez mais seu senso artístico. Dá para acreditar que isso saiu da cabeça de alguém de 15 anos? A impressão que se tem é que um velho blueseiro bêbado e desdentado encarna na garota e passa através dela toda sua tristeza e melancolia. Simplesmente genial.

Voltando à entrevista, Mallu chega sorridente distribuindo abraços à meia dúzia de jornalistas que a aguardava no Porão do Beco. É impossível não simpatizar na mesma hora. Ela havia recém saído do aeroporto – estava impressionada com a cor dos táxis – e dado uma rápida passada na loja Vulgo, no Moinhos de Vento, onde foi comprar uma camiseta que viu na internet. “Ela tem um bichinho rosa que fala ‘I am blue'”, conta, faceira com a aquisição. De fato, a Vulgo era umas das referências que Mallu tinha em relação a Porto Alegre. “Essas são as três coisas que me vêm de Porto Alegre: Cachorro Grande, a Vulgo e as pessoas legais daqui que eu conheci.

Preocupada em trasmitir sua maneira de pensar através de sua imagem, Mallu usava um cachecol de flanela xadrez feito por ela mesma, dando à garota um ar meio capa do Blonde on Blonde. Ela diz que gosta de pegar recortes dos artistas que admira – Bob Dylan, Beatles – e se inspirar no jeito que eles se vestem. Sobre modismos e estilos alternativos, é coerente e acredita que devemos usar aquilo que gostamos, independente de estar na moda ou não. “Gosto muito de chapéu, sempre achei uma coisa bem única. Depois eu percebi que não é uma coisa tão única, mas e daí? Você não pode desconsider uma coisa que tá sendo usada só porque ela tá sendo usada, chapéu pode não ser tão alternativo e tão original assim, mas é legal e pronto”.  Louvável.

Mallu exercitou a criatividade para moda no seu novo clipe, ‘J1’. Já que o vídeo foi patrocinado pela Levi’s, a menina deveria usar roupas da marca nas filmagens. Quando foi escolher as peças que gostaria de vestir, não encontrou nada do seu agrado na seção feminina – “só tinha uns casacos que deixavam a barriga de fora!”. Sua opção ficou sendo uma calça vermelha e uma blusa com a frase “My Generation”, tirada da ala masculina. Na hora de gravar, mais um problema: a camiseta já tinha sido usada nesse projeto da Levi’s. A solução encontrada? “A gente virou ela do avesso e ao contrário, daí ficou com um código da barras na frente, muito legal”.Nico Collares

Moda e design estão nos planos da garota, cujos desenhos e colagens ficaram tão famosos quanto as canções. Ela pensa em fazer uma faculdade na área, mas não logo depois de sair do colégio. “Eu já odeio escola, daí ter que sair da escola e já entrar pra faculdade não dá, né?“, afirma sorrindo. De fato, ir ao colégio não é muito do agrado da moça, que se esforça por respeito aos pais e por saber que será importante para seu futuro. “É importante para você ter um futuro, fazer faculdade, mas não deixa de ser muito chato”, afirma. A leitura também não é dos passatempos favoritos de Mallu, que, fora jornais e revistas, só gosta de ler Nelson Motta. “Você lê noites tropicais e você se sente um tropicalista”.

Mas se os livros não estão com nada, Mallu afirma ser fã de cinema e considera O Fabuloso Destino de Amélie Poulain um de seus filmes favoritos. “Amelie Poulain foi um filme que me mudou bastante, por eu querer fazer parte daquela fotografia”, afirma. Assim como a personagem de Audrey Tautou, Mallu às vezes se sente deslocada no seu ambiente, por não ter muitas pessoas da sua idade e do seu colégio com quem possa conversar sobre aquilo que mais gosta: música. Assim, ela se vê como uma espécie de “embaixadora do folk”, mostrando suas canções e artistas favoritos aos colegas e tentando fazer com que cada vez mais pessoas gostem desse estilo.

Realmente, deve ser difícil para Mallu conversar sobre música com seus colegas. A menina diz que não escuta rádio, mas também não tem preconceito com aquilo que faz sucesso comercial. “Música boa é o que você gosta, independentemente de onde ela toca. Música alternativa é uma música que não tá no padrão, mas onde ela tá e onde ela vai parar não tem que interessar”, afirma, com sabedoria rara para alguém de 15 anos. Mesmo assim, Mallu não se considera alternativa: “eu não me considero nada, eu nem sei direito o que é alternativo, eu não sei direito o que é muita coisa, e eu não consigo saber se eu sou alternativa porque eu não sei se eu tô seguindo um padrão. Tomara que não“, diz a garota que tem como passatempo procurar artistas novos no MySpace. E o que é realmente alternativo para ela? “Velvet Underground”. E como poderia deixar de ser?

Apesar da pouca idade, Mallu parece ciente da sua vulnerável situação de artista-relâmpago e diz ter um ótimo relacionamento com os pais a respeito disso, mesmo que de vez em quando possa surgir algum problema. “Eu tô preparando meus pais. Às vezes eu vou em algum show, eu entro no camarim, e, lógico, eu saio um tanto quanto defumada de… elementos [risada envergonhada]. Eu chego em casa e meus pais já olham com uma cara pensando ‘vou cortar esses shows’, aí eu tenho que explicar que as coisas são assim, mas graças a Deus meus pais são ótimos”, fala a menina que adora tocar fora de São Paulo e conhecer novas cidades.

É claro que a pergunta que não podia faltar seria sobre a relação que Mallu tem com os garotos e o assédio dos fãs. Na hora de responder, ela fica um pouco constrangida e conta de uma vez que recebeu uma carta “apimentada” demais de um fã: “eu comecei a ler, mas uma hora eu tive que parar e carinhosamente jogar a carta fora, porque era uma carta chula! Era muito avançada pra mim, eu não consegui terminar de ler aquilo. Fiquei meio nervosa, mas acho que esse foi o único constragimento”, afirma.

Elis Martini

Quanto ao show no Porão de Beco, Mallu mostrou desenvoltura e carisma com o público, tocando suas músicas mais conhecidas e algumas inéditas, como a que eu dei destaque no início desse texto, além de covers de I’ve just seen a face, dos Beatles, Folsom Prison Blues, do Johnny Cash, e Anyone else but you, trilha do filme Juno. Sozinha no palco a maior parte do tempo, em algumas canções Mallu recebeu o apoio do tecladista carinhosamente apelidado de ‘Vini Vaqueiro’.

Para os ávidos pelo primeiro CD da garota, ela afirma que começará as gravações nas suas férias de inverno.

Chora Bob Dylan!

Veja mais fotos da entrevista e do show na nossa galeria.

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Por Elis Martini
Colaboração: Nico Collares e André Schröder

Júpiter Maçã: me sinto decadente como pessoa

9 Abril, 2008

André Schröder

Após três anos do lançamento da edição espanhola de ‘Uma tarde na Fruteira’, Júpiter Maçã subiu ao palco do Opinião na noite de segunda-feira (7.04) para apresentar a edição brasileira do disco e gravar o seu primeiro DVD. Responsável por educar musicalmente uma geração de jovens porto-alegrenses e único compositor gaúcho presente na lista dos 100 maiores discos brasileiros de todos os tempos, aquele que antigamente era conhecido como Flávio Basso falou durante a passagem de som sobre trabalho, mulheres e decadência.

Suado e ainda atordoado com o palco, Júpiter pede um pouco de tempo para se “recompor” antes da entrevista – feita no chão de um estreito corredor de acesso ao camarim. Ele afasta, logo de início, qualquer expectativa quanto à apresentação. “Eu nunca tenho expectativa sobre nada. É tipo sorvete italiano, sabe? Aquele que tem em toda esquina com a maquininha, mas a gente nunca sabe se vai realmente ser bacana ou não”.

Poucas horas depois ficaria mais fácil entender sua posição. Bêbado, sem voz e com dificuldade para se entrosar com a banda, Júpiter até que conseguiu se manter firme nas dez primeiras músicas. Depois disso, coube ao público a tarefa de cantar novos e velhos hits enquanto a atração principal, com olhar perdido, seguia o embalo revezando performances sensuais e momentos de autismo.

Ver Júpiter nessa situação não foi surpresa para a maioria do público. A atual condição do artista é assunto recorrente em mesas de bares. Ele, no entanto, parece ciente da situação. “Sim, eu estou me sentindo decadente, mas não artisticamente ou poeticamente. Eu estou me sentindo decadente enquanto pessoa. É mais um sentimento ‘intro’ que não ajuda muito”, afirma enquanto entorna a garrafa de Ypióca envolta em uma sacola plástica de supermercado.

Na música ‘Casa de Mamãe’, faixa nove do novo disco, ele mostra um pouco desse sentimento:

Fico tomando essa cachaça
Tomando um chá
Me sinto um pouco decadente
Um tanto quanto decadente
Mas com estilo
Um pouco decadente
Mas com estilo
Alem disso eu nem progredi
No meu blues tropicalista
No meu blues neomodernista
Na minha canção mais estereofônica

A imagem do rockeiro atordoado no palco, sem referenciais e incompreendido pelo público não é estranha e Júpiter sabe disso. Arnaldo Baptista, Syd Barret e Charly García são exemplos clássicos da oposição entre genialidade artística e derrocada moral. A dificuldade de se manter sóbrio e de se comunicar de forma clara pode explicar outra característica comum entre esses artistas: a dependência de uma figura feminina. Nos últimos trabalhos de Júpiter foi constante a presença de seus affairs, tanto nas gravações quanto nos shows.

Elis Martini

Em ‘Uma Tarde na Fruteira’, Talitha F. participou com vocais e percussão. Já em ‘Bitter’, gravado e lançado em 2007, Bibmo toca violão, guitarra e faz alguns backing vocals. “Mil por cento. Eu fico emocionado”, Júpiter diz chorando ao falar do quanto suas músicas são influenciadas pelas suas companheiras. “Cara, mil separações, mil mulheres. Bem pelo contrário do que vocês podem imaginar, não é porque eu não sou bom de cama”, brinca ainda com lágrimas nos olhos. “Entrevista que não é emocionante é uma merda“.

Para Júpiter, assim como para grande parte dos críticos, ‘Uma tarde na Fruteira’ é uma obra do mesmo nível do cultuado ‘A sétima efervescência’, que rendeu ao músico projeção internacional a partir de 1997. “Com o ‘Fruteira’ eu voltei de novo a ser sucesso de público e de crítica. É muito triste você separar, mas existe a crítica e os formadores de opinião e existe o público. E quando você consegue tudo junto é legal. Quando você volta da Inglaterra sem ter acessado internet ou coisas do gênero e alguém diz ‘você é o maior, man…’, é de enlouquecer”, conta emocionado.

De fato, a semelhança entre os dois álbuns não se restringe apenas ao bom recebimento por parte de críticos e fãs. Os hits atuais ‘A Marchinha Psicótica de Dr.Soup’, ‘Síndrome de Pânico’, ‘Beatle George’ e ‘Mademoiselle Marchand’ têm a mesma força que as já carimbadas ‘Querida Superhist’, ‘As Tortas e as Cucas’, ‘Novo namorado’, ‘Miss Lexotan’ e ‘Pictures and Paintings’. Além disso, a influência do tropicalismo e da psicodelia sessentista é visível nas duas obras.

Basta saber se alguma das canções atuais terá o sucesso incontestável de ‘Um Lugar do Caralho’, música que o próprio Júpiter trata com distinção. “No ‘A Sétima Efervescência’ eu tenho um sucesso do qual eu não tenho como fugir, que é ‘Um lugar do Caralho’. Eu não gosto de me comparar com outros artistas, mas os Rolling Stones não podem sair do palco sem tocar ‘Satisfaction’ que eles vão ser espancados. Por isso que eu tenho que tocar”. E tocou.

André Schröder

O show no Opinião só não foi um fiasco completo graças à banda de apoio formada por músicos locais – bateria, percussão, baixo, duas guitarras, piano e cítara em algumas canções. Bem ensaiados para o que deveria ser uma apresentação mais profissional, o grupo por vezes pareceu surpreso com o pouco comprometimento de Júpiter. Apesar disso, o público presente encarou de forma natural a situação e fez a estrela da noite se despedir em lágrimas após a execução de ‘Cachorro Louco’, que fechou o show com direito a fãs invadindo o palco. O DVD ao vivo, gravado pela produtora Lazerimaron, responsável pelo seriado ‘vidAnormal’, não tem previsão de lançamento.

Embora seja difícil apostar em um bom show de Júpiter, o mesmo ainda não pode ser dito de sua música: o próximo disco já está em processo de criação, embora sem data para ser finalizado. “Eu tô fazendo um disco no banheiro do hotel Savoy. Eu tô trabalhando com parceiros e tenho recebido muitas pessoas. A gente trabalha dentro do banheiro. Ele é mais inglês e vai se chamar ‘Savoy Hotel’, provavelmente. Tem um Savoy na Inglaterra que é onde o Dylan morou, mas eu não tô imitando ele”.

Veja mais fotos da entrevista e do show.

Por Elis Martini e André Schröder
Colaboração de Nico Collares