Arquivo por Autor

O exagero de Fernando Mantelli

13 Outubro, 2008

Gostei do livro Raiva nos Raios de Sol, do publicitário e cineasta Fernando Mantelli. Após o primeiro dos vinte contos que compõem o lançamento, pensei em interromper a leitura: achei bastante exagerado, com uma proposta que sabia que seria repetida ao longo das demais páginas (e se repete sim). No entanto, os elementos característicos do autor – violência, terror, sexo, traição, aborto, racismo – são colocados de forma original. Exagerado, mas surpreendente. Quem gosta de Charles Bukowski e do cubano Pedro Juan Gutiérrez vai entender (e gostar).

Fernando Mantelli e a Não Editora (que mandou uma cópia do livro pro blog) lançam Raiva nos Raios de Sol na quarta-feira (dia 15), com sessão de autógrafos na Livraria Cultura do Bourbon Country, a partir das 19h30. O escritor levou o prêmio Açorianos de 2001, na categoria autor reveleção em contos, com o livro Feliz Fim do Mundo. Quem quiser ver a produção de Mantelli para o cinema, pode dar uma olhada aqui.

Comentário gratuito e irrelevante: na capa do livro tem uma menina com um “maiô Mondrian”.

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“Sobre o uso de efeitos especiais” ou ainda “Aprende Spielberg”

7 Outubro, 2008

Muito fantástico o trecho do do filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em 1978, em que Billy Preston banca o próprio Sgt. Pepper enquanto canta Get Back (é, usaram músicas de outros discos na trilha).

O filme, produzido por Robert Stigwood e dirigido por Michael Schultz, traz no elenco Peter Frampton, Bee Gees, Alice Cooper e o estreante Steve Martin. George Harrison e Linda McCartney fazem uma pontinha também.

Frase de efeito: efeitos especiais só fazem sentido quando usados dessa maneira.

Gang 90 e as Absurdettes

3 Outubro, 2008

Não sou muito fã de anos 80 e é com certo alívio que vejo as festas temáticas em homenagem à década perderem força. Nunca entendi porque bonitas jovens moderninhas decidiram ressucitar o tenebroso cabelo da Angélica no início de carreira para dançar as músicas da época, anunciadas em cartazes de festa com a imagem (obrigatória) de um pogobol. É claro que coisas boas foram feitas ao longo desses mau vestidos 10 anos, mas a estética característica da época é meio absurda e não muito digna de um revival.

Dentro do que chamamos de clássicos dos anos 80, a banda The B-52’s merece crédito no campo musical. A irreverência das letras e a alegria contagiante das músicas é revisitada de várias maneiras até hoje (Bidê ou Balde comprova). Mais do que isso, o grupo foi copiado quase que instantaneamente no Brasil por grupos como a Blitz.

O que não entendi é porque uma das melhores bandas brasileira estilinho B-52’s não ganhou o devido destaque na recente volta musical oitentista. A Gang 90 e as Absurdettes emplacou até tema de novela das 8 em 1983, mas vive esquecida junto à miscelânea de bizarrices produzidas no período.

O grupo, fundado pelo jornalista com cara de nerd Júlio Barroso, tinha como vertente principal a então bombante new wave. Além disso, o líder da banda agregou influências beatniks às músicas, influenciado pela leitura fanática de Jack Kerouac. O resultado é composto de excelentes músicas dançantes, recheadas de trocadilhos e deboches.

A banda lançou apenas um álbum – Essa tal de Gang 90 e Absurdettes (1983) – com Barroso ainda vivo. Em 1984, o vocalista caiu da janela do seu apartamento em São Paulo e morreu. Depois disso, a tecladista da banda, Taciana Barros, assumiu a bronca e lançou os discos Rosas e Tigres (1985), com quase todas as músicas ainda compostas por Barroso, e Pedra 90 (1987), fracasso que decretou o fim da Gang 90.

Além da clássica Convite ao Prazer aí em cima, uma espécie de hino oitentista, quase todos já devem ter ouvido os hits Nosso Louco Amor, Telefone e Perdidos na Selva.

Cota para comerciais do Lynch no Brasil

3 Outubro, 2008

Não vou negar que gosto de alguns comerciais piadísticos calcados em insights não muito elaborados que dominam as propagandas da televisão brasileira. Esse aqui, por exemplo, me parece bastante competente para o tipo de produto. No entanto, queria que algum bom candidato propusesse cota para comerciais decentes, que fujam das piadas óbvias e que não sejam tão diretos na intenção de vender o que for preciso.

Tudo isso para dizer que gostaria de ver um comercial das Havaianas, da Petrobras, do governo da Bahia ou da Polar feito pelo David Lynch. O diretor mantém a (chamem do que quiser) loucura, a fantasia, o nonsense, o clima onírico e outros tantos elementos típicos de seus filmes nos comerciais que fez nos últimos anos.

A série de comerciais feitas para o lançamento do PlayStation 2 é fantástica. Além do vídeo aí em cima, não há como não achar muito legal esse, esse, esse e principalmente esse. Esse outro é meio ruim. Além desses, também é massa a proposta do comercial dos cigarros Parisienne, do Nissan Micra e dos perfumes Opium e Gucci by Gucci (esse com trilha sonora do Blondie e com a modelo brasileira Raquel Zimmermann).

Novo do Oasis: nem pra menos, nem pra tanto

1 Outubro, 2008

No MySpace do Oasis dá para ouvir na íntegra o novo disco da banda – Dig Out Your Soul. Os irmãos Gallagher ficaram falando sem parar que o álbum é a melhor coisa que já fizeram, que as músicas não tocarão muito nas rádios por se distanciarem do mainstream e que o trabalho não conta com singles pop. Mentiram um pouco, já que várias músicas lembram muito – principalmente pelos vocais e pelos timbres das guitarras – qualquer disco anterior da banda. Além disso, pelo menos cinco músicas são singles radiofônicos indiscutíveis e certamente vão tocar muito.

Isso, no entanto, não quer dizer que o disco seja ruim ou comum. Muito pelo contrário. Dá para perceber em vários momentos a preocupação da banda em inovar (ok, talvez resgatar) nos sons utilizados e fugir do formato pop tradicional (nem sempre, nem sempre). Enfim, nada espetacular, mas uma boa volta da banda depois de alguns discos meio chatos.

Eu curti especialmente as músicas The nature of reality e Waiting for the rapture. A faixa I’m Outta Time, que Liam Gallagher levou 10 anos para finalizar em homenagem a John Lennon também vale a pena.

Cinema oitentista comanda

26 Setembro, 2008

A Folha Online colocou no ar essa semana enquetes para os internautas escolherem os melhores filmes nas últimas cinco décadas. Os favoritos do público serão exibidos em dezembro – quando o caderno Ilustrada completa 50 anos – durante um ciclo de cinema. Sem complicar com as 50 obras pré-escolhidas pelos críticos do jornal, posso dizer com certeza que três dos cinco primeiros colocados até o momento não estariam na minha lista: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha; Blade Runner (1981), de Ridley Scott; e O Senhor dos Anéis (2001), de Peter Jackson.

Acho que a escolha mais complicada fica nos anos 80, entre Paris, Texas (1984), de Wim Wenders; Veludo Azul (1986), de David Lynch; e Não Matarás (1988), de Krzysztof Kieslowski. Seguem os links.

Cinema 1958 a 1969, Cinema 1970 a 1979, Cinema 1980 a 1989, Cinema 1990 a 1999 e Cinema 2000 a 2008.

Em breve, enquete do moderninho para escolher os melhores filmes em cinco categorias fundamentais.

Is Paul dead?

24 Setembro, 2008

Foram tantas as ameaças terroristas depois dos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos que o falatório já é encarado com certa naturalidade. Toda semana (talvez todo dia) algum grupo extremista diz que vai (e por vezes vai mesmo) explodir hotel, embaixada, mercado, metrô. É compreensível que os mais precavidos fiquem atentos a esse tipo de noticiário, mas para a grande maioria dos ocidentais as ameaças são tão comuns que só impressionam, na melhor das hipóteses, quando acontecem de verdade.

O problema é que amanhã Paul McCartney sobe ao palco montado no parque Hayarkon de Tel-Aviv, em Israel, sob ameaça do líder islâmico Omar Bakri, que disse a um jornal inglês que o ex-beatle virou inimigo quando aceitou se apresentar em um Estado que oprime os muçulmanos.

Se tivesse o celular do Paul, mandava uma mensagem dizendo que show aqui em Porto Alegre é mais tranqüilo e que talvez não seja uma boa idéia ficar em pé, na frente de mais de 40 mil pessoas, sabendo que pode haver um malandrinho querendo atirar ou se explodir ali por perto. Como o devaneio não procede, é esperar até amanhã pra respirar mais tranqüilo.

Amarante > Camelo

23 Setembro, 2008

O Little Joy – trio formado pelo Rodrigo Amarante, pelo baterista do Strokes Fabrizio Moretti e por Binki Shapiro (namorada do Fabrizio) – disponibilizou no MySpace três faixas do primeiro disco da banda, que foi gravado em julho e será lançado no início de novembro nos Estados Unidos. No One’s Better Sake é um reggae com cara de antigo e bem interessante. Brand New Start tem clima havaiano, refrão marcante e vocais que lembram Los Hermanos. With Strangers é a mais calma de todas, com arranjos simples que valorizam a boa letra.

Com isso, e depois de ouvir o disco solo do Marcelo Camelo, posso afirmar com certeza que o espírito musical de Amarante me agrada mais. As músicas do Little Joy – mesmo que apontemos todas as infuências claras e obscuras – são originais, diversificadas e surpreendentes. Camelo produziu um bem acabado disco com musicalidade semelhante ao que colocou no último trabalho do Los Hermanos. Reconheço alguns bons momentos do trabalho – a música Janta, com a Mallu Magalhães, ficou bonita – e sei que muitos fãs de MPB gostaram, mas eu enchi o saco de ouvir ele se lamentando.

Sem radicalismos, espero que o Los Hermanos volte mais para Amarante do que para Camelo. De qualquer forma, me pareceu saudável a separação e não acho difícil que a banda consiga produzir um novo álbum do nível do Ventura, o melhor que já fizeram.

Novo do Belle & Sebastian com 4 inéditas

23 Setembro, 2008

Na metade de novembro o Belle & Sebastian lança um álbum duplo – The BBC Sessions – com quatro faixas inéditas, versões de músicas dos primeiros discos da banda e um registro ao vivo em Belfast. Do The Life Pursuit – último e na minha opinião disparado o melhor disco dos escoceses – só tem a faixa The Boy With The Arab Strap, que tá aí em cima não tem nenhuma faixa. Na parte ao vivo tem Here Comes the Sun, dos Beatles, e Waiting for the Man, do Velvet Underground. Se mantiverem o clima “um pouco mais animadinho” do último disco não tem chance de ser ruim. Seguem as faixas do lançamento:

Disco 1 – Radio Sessions
The State I Am In, Like Dylan In The Movies, Judy and the Dream of Horses, The Stars of Track and Field, I Could Be Dreaming, Seymour Stein, Lazy Jane, Sleep The Clock Around, Slow Graffiti, Wrong Love, Shoot The Sexual Athlete, The Magic of a Kind Word, (My Girls Got) Miraculous Technique.

Disc 2 – Live in Belfast
Here Comes The Sun, Theres Too Much Love, The Magic of a Kind Word, Me and the Major, Wandering Alone, The Model, Im Waiting For The Man, The Boy With the Arab Strap, The Wrong Girl, Dirty Dream # 2, Boys Are Back in Town, Legal Man.

Cinema + Pelé + bicicleta “arranjada” = Oscar

18 Setembro, 2008

Nunca vi filme que consiga fazer um jogo de futebol encenado parecer verdadeiro. Eu sei que os zagueiros do meu time também tiram a perna na hora da dividida, mas normalmente a atuação dos atores futebolistas é hilária. São 22 jogadores dispostos de forma aleatória no campo, sem tática, sem marcação, sem contato físico, sem lançamentos longos, sem nada que lembre uma disputa coerente.

John Huston – diretor de O Falcão Maltês, Moulin Rouge, Moby Dick e mais uma pá de coisas relevantes – encontrou uma forma peculiar de superar as dificuldades de encenar um jogo de futebol: chamou o Sylvester Stallone, o Michael Caine e o Pelé para atuar e, com isso, escancarou que o filme não tava ali para parecer de verdade. Acho que fez bem… quem se preocuparia em ver defeitos em um jogo que tem o Stallone de goleiro?

Em Fuga para a Vitória (Victory), de 1981, prisioneiros da II Guerra Mundial enfrentam jogadores profissionais da Alemanha nazista. Quem escreveu a baboseira toda devia ter fumado 1 kg de haxixe, já que os nazistas perderam o jogo depois de estarem vencendo por 4 a 0 (aqueles famosos momentos Disney difíceis de explicar). Mas sabe como é, filmes e comerciais que têm o Pelé dando uma bicicleta “arranjada” têm salvo-conduto e estão livres de qualquer crítica maior.

A obra conta ainda com a participação de vários jogadores “de verdade”, com destaque para o argentino campeão do mundo em 1978 Osvaldo Ardiles.