Visitamos Tony da Gatorra

by

Nico Collares

No último sábado (10.04) estivemos na periferia de Esteio (RS) para conversar com Tony da Gatorra, o técnico em eletrônica que virou músico depois de criar um instrumento único para acompanhar suas letras de protesto e seus pedidos de paz. Depois de alguma dificuldade para encontrar a rua certa, fomos recebidos gentilmente pelo artista em uma casa com placa de “vende-se” na frente. Murais com reportagens, fotos, credenciais, desenhos, flyers e presentes decoram as paredes da sala. Perto da TV de 14 polegadas ficam alguns amplificadores e, escorada em um suporte improvisado, a gatorra número 1. Em um cômodo ao lado da cozinha, a infinidade de peças e ferramentas dão cara à oficina onde Tony idealizou e construiu o instrumento que deu novos rumos à sua vida.

Quando surgiu a idéia de montar um instrumento?
Começou com a minha idéia de protestar contra o sistema capitalista no Brasil, contra a exploração que os “espertos” fazem aqui. Eu me criei passando fome, via as dificuldades de todo mundo e via que se aproveitavam da ingenuidade do povo. Tive vontade de fazer alguma coisa, entende? Eu também sempre gostei de música e de percussão. Quando era solteiro até comprei uma bateria e era carregador de instrumentos de uma banda de bailão.

Quanto tempo demorou pra fazer a primeira gatorra?
Eu fiquei um ano trabalhando em cima dela e não dava certo. Eu estava quase desistindo, mas daí gravei o CD e levei lá na [rádio] Ipanema. O cara ouviu e me convidou pra televisão.

Quantas tu já fez até agora e quanto tu cobra por cada uma?
Fiz dez até agora e tenho mais três pedidos para confirmar em São Paulo. Eu cobro R$ 1,5 mil por cada uma. Vai sair uma matéria minha no ‘Fantástico’ no próximo domingo e os pedidos devem aumentar. Eu tenho minha oficina aqui em casa mesmo e levo cerca de dois meses para fazer uma. Agora estou me equipando melhor porque acho que vai aparecer muito pedido e tenho que ser mais rápido.

Nico CollaresÉ muito difícil fazer a gatorra?
É complicado porque eu tenho que improvisar com o material. As teclas, os botões, eu tenho que achar daqui e dali. Eu pretendo industrializar, padronizar, fazer uma linha de montagem. Tenho outras idéias para fazer isso, também para baixar o custo.

Tu baseou a gatorra no que?
Eu li sobre os circuitos que provocam efeito de som através dos capacitores de retorno e isso me chamou a atenção. Vi que mudava o sinal através do capacitor. Comecei a fazer algumas experiências e deu certo. No início tive problemas porque cada botão do instrumento dava um som duplo, mas depois consegui resolver utilizando outro tipo de sistema.

E quem já comprou o instrumento?
Em 2005 eu comecei a vender gatorra lá em São Paulo. Antes disso, aqui no Rio Grande do Sul, eu não tinha vendido nada. Meu produtor comprou a gatorra número 3, meu empresário comprou a gatorra número 4, depois um cinegrafista também comprou. Fiz uma para a Lovefoxxx, da Cansei de Ser Sexy, e também para o Nick [McCarthy], da Franz Ferdinand.

E tu trabalha só com isso agora?
Só gatorra. Não conserto mais porque não dá tempo. Até 2005 meu ganha pão era conserto de TV, vídeo. Agora é gatorra e alguns amplificadores valvulados para estúdio que eu monto.

Depois de uma breve aula de fundamentos da gatorra, Nico e eu arriscamos tirar um som do instrumento. Apesar da grande quantidade de botões e reguladores, a gatorra não é tão difícil de ser tocada, pois segue a lógica da bateria. Quando localizados os botões correspondentes ao bumbo, à caixa e ao chimbal, o desafio é manter o ritmo e arriscar nos improvisos. Além disso, Tony adaptou um pedal que funciona como bumbo e permite mais versatilidade no uso das mãos.

Como foi tocar na Europa?
Foi demais. É muito bom tocar lá e eu fiquei bem conhecido. Meu empresário, que é de São Paulo, disse para eu ficar preparado porque novas viagens vão aparecer. Toquei em Londres, em Glasgow. Dividi o palco com o Nick [McCarthy] em um festival. O pessoal gostou bastante.

E tu vai voltar esse ano para tocar lá?
Em junho eu tenho quatro shows em São Paulo e dois no Rio de Janeiro. Depois, em agosto ou setembro, eu vou para o Japão tocar em um festival grande que vai ter em Tóquio. Quero muito tocar lá, porque eles são loucos por instrumentos de percussão. Meu empresário está tentando fazer eu tocar em Glasgow de novo e acho que também nos Estados Unidos.

E o CD novo? Quando sai no Brasil?
O disco ‘Novos Pensamentos’ foi lançado somente na Europa. É o quarto CD que eu tenho desde 2005, mas o primeiro com a gravadora [Slag Records]. Deu um problema para lançar aqui. O meu empresário era o mesmo da Cansei de ser Sexy, mas eles tiveram uma bronca e romperam. Como a Lovefoxxx tem participação em duas faixas do meu CD, ele está com medo de lançar aqui, de fazer a divulgação e receber um processo.

O disco é só com gatorra ou tem outros instrumentos?
Sempre sozinho. Sem banda e sem instrumental. Eles colocaram alguns efeitos na mixagem, mas nos shows sou sempre eu sozinho.

A maior parte das músicas é de protesto?
Sim. Eu falo contra esses safados que pegam nosso dinheiro. Mas também falo muito de paz e de coisas bonitas.

A edição européia do CD ‘Novos Pensamentos’ vem encartada em papelão reciclado, com uma arte muito legal. As informações e a letra de três músicas são apresentadas escritas a mão pelo próprio Tony, junto com desenhos dos circuitos utilizados para construir a gatorra (uma espécie de teoria do instrumento). Além do lançamento oficial do disco no Brasil, Tony espera ansioso pelo seu primeiro DVD, uma compilação de imagens de shows que está sendo produzido em São Paulo.

Vimos que a casa está para vender…
É que eu quero ir para mais perto de São Paulo. Eu gasto muito indo para lá toda hora. Meus shows mesmo são em Curitiba, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife. Às vezes, gasto metade do que ganho em hotel. Aqui no Rio Grande do Sul não tem muito espaço, o pessoal gosta mesmo é de vanerão, música pra se divertir. Meu trabalho não é muito apreciado aqui.

E como são os shows no centro do Brasil. Tu é bem recebido?
Eles gostam muito, entendem as músicas e compram os CDs. Minha mensagem é bem recebida principalmente por estudantes, jornalistas e professores. Toquei em várias universidades como convidado e ainda me pagavam cachê de 300 contos. Toquei também em um festival no Recife. Toco as minhas músicas e falo com o público. Eu fico orgulhoso.

Nico CollaresTony mostra boa parte dos recortes colados nas paredes e também a pequena pilha de revistas onde aparece, entre elas uma publicação britânica que aponta orgulhoso. As fotos de apresentações ao lado de Nick McCarthy, da Franz Ferdinand, e de Gruff Rhys, líder do Super Furry Animals, se destacam. Uma gatorra de pelúcia e um retrato de Tony feito a mão, presentes de Lovefoxxx, também O artista envia semanalmente cartas para o produtor em São Paulo. Os textos são digitados sem correções ou alterações e publicados no blog. Além disso, o produtor também cuida das músicas no MySpace. Outros sons de Tony da Gatorra podem ser encontradas na Trama Virtual.

Tu mora sozinho?
Moro com o meu filho. Quando eu comecei a fazer a gatorra e os primeiros shows, minha companheira me deixou. Eu tive que investir no projeto e todo o dinheiro que ganhava ia em panfletos e passagens. Ela pediu para escolher entre a gatorra e ela. Depois de dez anos ela quis voltar. Burra, né? Meu filho tem 29 anos e me ajuda, vai comigo para Porto Alegre quando eu preciso.

Como tu montou esse visual característico?
Eu mando fazer a calça, o colete, a faixa. Não tem pra vender. Uso sempre nos shows e o pessoal gosta.

Nas músicas tu fala sobre corrupção e injustiças cometidas pelo governo. Em quem tu vai votar nas próximas eleições?
Tá difícil. Esse cara [Lula] me enganou. Eu votei nele na primeira vez, mas ele é um covarde mentiroso. Esse porco falou um monte de coisa e não fez nada. Só fez a “Bolsa Miséria”, que é uma humilhação. Em vez de investir no social, faz isso.

Tu usa algum tipo de droga?
Eu sempre usei maconha. Nem considero droga. Nossa turma em São Paulo sempre fuma. Para mim é até anti-depressivo. Droga são essas farinhas que o pessoal usa, que deixa a pessoa fora de controle, sem raciocínio, que mata neurônios. A maconha me acalma e me ajuda a compor. Pra mim não é droga porque é natural.

Quais tuas referências musicais? O que tu gosta de ouvir?
Sempre curti mesmo é Rolling Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin, The Who, Beatles. Tenho até os bolachões aqui. Ultimamente ouço coisas variadas: gosto bastante da Cachorro Grande, da Ultramen e do Paralamas do Sucesso.

Tu tem algum ritual para fazer as músicas?
As idéias das músicas vêm de acordo com o que ocorre por aí. Fico prestando a atenção e as idéias aparecem. Não sou muito de sair. Fico em casa, descansando e fazendo as músicas.

Nico CollaresTu tem aquela música ‘Voz dos Sem-Terra’…
Essa música eu fiz porque acho que sou um dos únicos que incentivam mesmo a ocupação. O Brasil é um país rico, é um dos maiores do mundo em extensão territorial e o pessoal passa fome no meio da fartura.

Tu tem alguma ligação maior com o movimento?
Não tenho ligação nenhuma. Só admiro eles. Uma vez eu toquei para eles em uma invasão na Assembléia Legislativa, com mais de duas mil pessoas.

Como foi o problema que tu teve com a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB)?
Eu tinha um show para fazer no SESC Pompéia de São Paulo, em 2005, e os caras queriam me impedir porque eu não tinha carteira de músico. Eles queriam que eu pagasse mais de R$ 200 para fazer a carteira. O que eu vou querer com essa carteira? Não interessa pra mim, interessa pra eles. Meu empresário é advogado e então nós resolvemos processá-los. Eles [OMB] não te favorecem em absolutamente nada, só te fazem de otário. É uma coisa do tempo da Ditadura. Agora eu tenho uma sentença que me autoriza tocar. Carrego sempre junto comigo.

Vestindo roupas e acessórios de show, Tony tocou duas músicas antes de nos despedirmos na porta da casa e ficou feliz com a possibilidade de assistir aos vídeos na Internet. Nico e eu compramos a versão européia do novo disco por R$ 15. Os interessados podem pedir através do e-mail tonydagatorra@hotmail.com.

Confira mais fotos da visita na nossa galeria.

Veja Tony tocando duas músicas e explicando como funciona a gatorra.

Por André Schröder
Entrevista de André Schröder e Nico Collares
Colaboração de Elis Martini

Uma resposta to “Visitamos Tony da Gatorra”

  1. ale cartier Says:

    muito boa a entrevista e a matéria em si!!! arrasaram!!! vou dar uma nota lá no Penetration sobre a matéria de vocês!😉
    abrassssssss

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