
Após três anos do lançamento da edição espanhola de ‘Uma tarde na Fruteira’, Júpiter Maçã subiu ao palco do Opinião na noite de segunda-feira (7.04) para apresentar a edição brasileira do disco e gravar o seu primeiro DVD. Responsável por educar musicalmente uma geração de jovens porto-alegrenses e único compositor gaúcho presente na lista dos 100 maiores discos brasileiros de todos os tempos, aquele que antigamente era conhecido como Flávio Basso falou durante a passagem de som sobre trabalho, mulheres e decadência.
Suado e ainda atordoado com o palco, Júpiter pede um pouco de tempo para se “recompor” antes da entrevista – feita no chão de um estreito corredor de acesso ao camarim. Ele afasta, logo de início, qualquer expectativa quanto à apresentação. “Eu nunca tenho expectativa sobre nada. É tipo sorvete italiano, sabe? Aquele que tem em toda esquina com a maquininha, mas a gente nunca sabe se vai realmente ser bacana ou não”.
Poucas horas depois ficaria mais fácil entender sua posição. Bêbado, sem voz e com dificuldade para se entrosar com a banda, Júpiter até que conseguiu se manter firme nas dez primeiras músicas. Depois disso, coube ao público a tarefa de cantar novos e velhos hits enquanto a atração principal, com olhar perdido, seguia o embalo revezando performances sensuais e momentos de autismo.
Ver Júpiter nessa situação não foi surpresa para a maioria do público. A atual condição do artista é assunto recorrente em mesas de bares. Ele, no entanto, parece ciente da situação. “Sim, eu estou me sentindo decadente, mas não artisticamente ou poeticamente. Eu estou me sentindo decadente enquanto pessoa. É mais um sentimento ‘intro’ que não ajuda muito”, afirma enquanto entorna a garrafa de Ypióca envolta em uma sacola plástica de supermercado.
Na música ‘Casa de Mamãe’, faixa nove do novo disco, ele mostra um pouco desse sentimento:
Fico tomando essa cachaça
Tomando um chá
Me sinto um pouco decadente
Um tanto quanto decadente
Mas com estilo
Um pouco decadente
Mas com estilo
Alem disso eu nem progredi
No meu blues tropicalista
No meu blues neomodernista
Na minha canção mais estereofônica
A imagem do rockeiro atordoado no palco, sem referenciais e incompreendido pelo público não é estranha e Júpiter sabe disso. Arnaldo Baptista, Syd Barret e Charly García são exemplos clássicos da oposição entre genialidade artística e derrocada moral. A dificuldade de se manter sóbrio e de se comunicar de forma clara pode explicar outra característica comum entre esses artistas: a dependência de uma figura feminina. Nos últimos trabalhos de Júpiter foi constante a presença de seus affairs, tanto nas gravações quanto nos shows.

Em ‘Uma Tarde na Fruteira’, Talitha F. participou com vocais e percussão. Já em ‘Bitter’, gravado e lançado em 2007, Bibmo toca violão, guitarra e faz alguns backing vocals. “Mil por cento. Eu fico emocionado”, Júpiter diz chorando ao falar do quanto suas músicas são influenciadas pelas suas companheiras. “Cara, mil separações, mil mulheres. Bem pelo contrário do que vocês podem imaginar, não é porque eu não sou bom de cama”, brinca ainda com lágrimas nos olhos. “Entrevista que não é emocionante é uma merda“.
Para Júpiter, assim como para grande parte dos críticos, ‘Uma tarde na Fruteira’ é uma obra do mesmo nível do cultuado ‘A sétima efervescência’, que rendeu ao músico projeção internacional a partir de 1997. “Com o ‘Fruteira’ eu voltei de novo a ser sucesso de público e de crítica. É muito triste você separar, mas existe a crítica e os formadores de opinião e existe o público. E quando você consegue tudo junto é legal. Quando você volta da Inglaterra sem ter acessado internet ou coisas do gênero e alguém diz ‘você é o maior, man…’, é de enlouquecer”, conta emocionado.
De fato, a semelhança entre os dois álbuns não se restringe apenas ao bom recebimento por parte de críticos e fãs. Os hits atuais ‘A Marchinha Psicótica de Dr.Soup’, ‘Síndrome de Pânico’, ‘Beatle George’ e ‘Mademoiselle Marchand’ têm a mesma força que as já carimbadas ‘Querida Superhist’, ‘As Tortas e as Cucas’, ‘Novo namorado’, ‘Miss Lexotan’ e ‘Pictures and Paintings’. Além disso, a influência do tropicalismo e da psicodelia sessentista é visível nas duas obras.
Basta saber se alguma das canções atuais terá o sucesso incontestável de ‘Um Lugar do Caralho’, música que o próprio Júpiter trata com distinção. “No ‘A Sétima Efervescência’ eu tenho um sucesso do qual eu não tenho como fugir, que é ‘Um lugar do Caralho’. Eu não gosto de me comparar com outros artistas, mas os Rolling Stones não podem sair do palco sem tocar ‘Satisfaction’ que eles vão ser espancados. Por isso que eu tenho que tocar”. E tocou.

O show no Opinião só não foi um fiasco completo graças à banda de apoio formada por músicos locais – bateria, percussão, baixo, duas guitarras, piano e cítara em algumas canções. Bem ensaiados para o que deveria ser uma apresentação mais profissional, o grupo por vezes pareceu surpreso com o pouco comprometimento de Júpiter. Apesar disso, o público presente encarou de forma natural a situação e fez a estrela da noite se despedir em lágrimas após a execução de ‘Cachorro Louco’, que fechou o show com direito a fãs invadindo o palco. O DVD ao vivo, gravado pela produtora Lazerimaron, responsável pelo seriado ‘vidAnormal’, não tem previsão de lançamento.
Embora seja difícil apostar em um bom show de Júpiter, o mesmo ainda não pode ser dito de sua música: o próximo disco já está em processo de criação, embora sem data para ser finalizado. “Eu tô fazendo um disco no banheiro do hotel Savoy. Eu tô trabalhando com parceiros e tenho recebido muitas pessoas. A gente trabalha dentro do banheiro. Ele é mais inglês e vai se chamar ‘Savoy Hotel’, provavelmente. Tem um Savoy na Inglaterra que é onde o Dylan morou, mas eu não tô imitando ele”.
Veja mais fotos da entrevista e do show.
Por Elis Martini e André Schröder
Colaboração de Nico Collares
9 Abril, 2008 ás 11:27 am |
[...] UPDATE 2: entrevsta com JM, feita antes do show de ontem, e impressões sobre o show. [...]
9 Abril, 2008 ás 5:53 pm |
ótima estreia. Só não entendi se o show foi uma merda completa ou não.
9 Abril, 2008 ás 6:36 pm |
grande texto, grandes autores.
virei freguês.
ps) tenho participação naquele link?
9 Abril, 2008 ás 8:05 pm |
Opa!
O Júpiter esteve no Radar semana passada, e postamos uns vídeos dele no programa. Se quiserem conferir é só no youtube e botar “radar júpiter maçã” ou apple.
É realmente uma pena, o álbum está tri bom, mas ele anda amy winehouse da vida. Recentemente ele deu uma entrevista para o Radar, que foi bem deprimente “às vezes me sento no meu quarto de hotel e fico esperando a morte…”
9 Abril, 2008 ás 11:28 pm |
Grande reportagem, é uma pena ver o Jupiter tao fora, eu curti cascavelletes, qdo o cara era o Flavio Basso, foi um tempo muito bom, mas agora a gente vai no show e ve o cara travado tocando varios minutos uma nota so, perdemos muito com isso.
10 Abril, 2008 ás 12:36 pm |
Me senti decadente como pessoa por nunca ter ouvido falar neste cara ou na banda.
Ou deveria me sentir feliz?
10 Abril, 2008 ás 2:16 pm |
Decadente como pessoa??? Chorando ao falar das ex-mulheres? Falando que continua poético??
Ele é o cara como pessoa, isso sim.
15 Abril, 2008 ás 12:08 pm |
“Me senti decadente como pessoa por nunca ter ouvido falar neste cara ou na banda.
Ou deveria me sentir feliz?”
Deveria se sentir um lixo, o Júpiter é um dos maiores compositores que esse país já teve, e o melhor da atualidade… embora não esteja em condições de boas performances ao vivo, as composições continuam OK.
Vc não sabe o que tá perdendo!
17 Abril, 2008 ás 12:46 am |
Viva o syd gaúcho , so que no jeito que ele ta , ele nao vai longe não…
mas qu e eo melhor compositor da atualidade , nao à duvidas
4 Maio, 2008 ás 3:50 pm |
[...] de mestres Divertidíssima essa entrevista que o Thunderbird fez com o Júpiter Maçã para a seção Thunderview do site ShowLivre. Entre muitos hiatos e expressões em inglês, o [...]
17 Maio, 2008 ás 8:39 pm |
Ótima a notícia de que o Júpiter continua inspirado e envolvido em novas produções, pois a produção dele é demais. Quanto a referida decadência moral podemos nos perguntar o que não é decadente neste início de século ou que padróes deveria adotar um artista ???
27 Maio, 2008 ás 10:18 pm |
[...] ausência de Flávio Basso – atual Júpiter Maçã e ex-vocalista dos Cascavelletes – na TeNenTe Cascavel até é facilmente compreendida (não sabe [...]
28 Maio, 2008 ás 12:01 pm |
muito afude.
26 Junho, 2008 ás 9:45 pm |
o Jupiter é O Cara, fico triste em saber que existem pessoas q não o conhecem ou q não gostam dele… essa gente não sabe o que é uma boa letra e uma boa música… vai escutáá pagode seu chinelão!
16 Julho, 2008 ás 12:09 am |
É uma pena saber que o Júpiter está assim… Curtia demais Os Cascavelletes… Bons tempos… Espero que melhore!